Mudar vidas: esse é o nosso trabalho

Quem constrói alguma coisa de verdade sabe que primeiro se faz, depois se conta. E é exatamente assim que o Pedro trabalha. Tem muita gente que só pisa aqui de quatro em quatro anos. Ou até pior: tem muito político que nem pisa nos nossos bairros.

Anchieta ensina isso. Foi nesse bairro, muitas vezes esquecido pela cidade, que ele aprendeu uma lição que carrega até hoje: discurso não enche estante, não abre biblioteca, não muda a tarde de uma criança que não tem para onde ir depois da escola. Quem constrói alguma coisa de verdade sabe que primeiro se faz, depois se conta. E é exatamente assim que o Pedro trabalha.

Quem faz constrói primeiro e fala depois. Assim trabalha Pedro do Livro, criador da Biblioteca A Casa Amarela

Uma relação com os livros que começou dentro de casa

A leitura fez parte da vida de Pedro como fez parte de muitas casas de subúrbio: sem luxo, sem cerimônia, mas com insistência. Ele estudou no Censa e no Colégio Paraíba, em Anchieta, e foi ali, ainda menino, que os livros deixaram de ser apenas tarefa escolar e passaram a representar algo maior: uma forma de enxergar um mundo além daquele que via pela janela. Não foi uma percepção intuitiva. Foi repetição. Foi hábito. E, quando o hábito vira identidade, permanece por toda a vida.

Anos depois, o Pedro formou-se em Geografia com ênfase em Meio Ambiente pela UERJ e, mais tarde, voltou à mesma universidade para cursar o mestrado em Educação, Comunicação e Cultura em Periferias Urbanas. Entre uma etapa e outra, não esperou o diploma para agir. Ainda estudante, foi vice-presidente da União Brasileira dos Estudantes (UBES), participando dos debates sobre educação ao lado de quem também acreditava que mudanças não podiam esperar. A formação acadêmica lhe deu método. A vivência nas ruas já havia lhe dado a urgência.

Raphael Moreira foi o responsável pelo Projeto Samba Menino para a criançada em 2023

Fazer antes de prometer

Em 2009, Pedro criou o Livro de Rua. A ideia era simples de explicar e difícil de sustentar: distribuir livros em praças, ruas e comunidades, sem pedir nada em troca, sem prazo de devolução, sem burocracia entre as pessoas e a leitura. Foram mais de 150 mil livros distribuídos gratuitamente pelo Rio de Janeiro em que cada um deles foi uma demonstração de que ampliar o acesso, sem discursos, já é uma forma concreta de transformar a realidade.

Construir primeiro e falar depois foi uma lógica que atravessou os anos seguintes. Tanto que Pedro passou pela COPPE/UFRJ formando gestores do ProJovem, atuou na gestão pública da cultura no Estado, coordenou a articulação institucional do Caminho Melhor Jovem e, mais tarde, foi Superintendente de Leitura e Conhecimento da Secretaria de Estado de Cultura, levando o incentivo à leitura para além dos espaços tradicionalmente alcançados. Em 2020, durante o período mais difícil da pandemia, criou o Histórias por Telefone, conectando pessoas que sabiam contar histórias àquelas que enfrentavam o isolamento. O projeto foi indicado ao Prêmio Band Inspira Rio. Nenhuma dessas iniciativas nasceu de um plano de carreira. Todas surgiram da mesma pergunta que orienta sua trajetória até hoje: o que é possível construir agora, com os recursos e as pessoas que estão à disposição?

A Biblioteca A Casa Amarela vive recebendo convidados em ações promovidas em Anchieta

De Anchieta para a Biblioteca A Casa Amarela

Todo esse caminho – a infância entre livros, a militância estudantil, a gestão pública e os projetos de leitura espalhados pela cidade – foi, na verdade, a preparação para a iniciativa da qual o Pedro mais se orgulha. Em 2022, ele fundou a Biblioteca A Casa Amarela, em Anchieta, ao lado de um grupo de voluntários que acreditava que o bairro merecia um espaço de cultura, leitura e convivência construído pela própria comunidade.

A Casa Amarela não nasceu como promessa de campanha. Nasceu como resposta a uma pergunta que Anchieta fez ao Pedro durante toda a sua trajetória: onde as pessoas podem ler, aprender e se encontrar quando o Estado não chega? Hoje, o projeto já soma cinco sedes na Zona Norte do Rio, nos arredores de Anchieta e Ricardo de Albuquerque, além de uma unidade dentro da estação Cinelândia do MetrôRio, símbolo de que a leitura pode, sim, fazer parte do caminho de quem atravessa a cidade todos os dias.

Uma introdução, não um relatório final


Este texto não pretende contar tudo. É o primeiro capítulo de uma história mais longa — e as próximas matérias vão se debruçar com mais profundidade sobre o território que me formou, sobre a Casa Amarela por dentro e sobre as pessoas que essa biblioteca já mudou de vida. https://bibliotecaacasamarela.org/

O que fica, por enquanto, é a lógica que atravessa cada projeto que carrego desde 2009: primeiro se constrói, depois se conta. Livro por livro, sede por sede, bairro por bairro. O resto — o discurso, a promessa, a proposta — só faz sentido depois que a porta já está aberta.

 

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