Tudo começou com um livro: a mihha Pedro do Livro

De Anchieta para diferentes territórios do Rio de Janeiro, uma história construída com livros, educação, cultura e a certeza de que ampliar oportunidades é um caminho para transformar vidas.


Olá! Que bom ter você aqui. 📚

Meu nome é Pedro de Abreu Pizoeiro Gerolimich, mas muita gente me conhece como Pedro do Livro.

Esse nome não nasceu de uma estratégia. Nasceu das ruas, dos encontros e dos milhares de livros que começaram a circular pela cidade.

Há mais de 15 anos, acredito que um livro pode abrir caminhos, criar oportunidades e transformar vidas. Foi dessa convicção que nasceu o Livro de Rua. Depois vieram a BookTruck, a Biblioteca Comunitária A Casa Amarela e, mais recentemente, o movimento +Livros – Violência.

Mas, antes de contar sobre cada uma dessas iniciativas, preciso começar pelo lugar onde essa história também começou.

Antes de ser Pedro do Livro, eu era Pedro de Anchieta

Nasci e cresci em Anchieta, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Sou cria do bairro. Conheço suas ruas, seus desafios, suas histórias e, principalmente, a potência das pessoas que vivem ali.

Foi também durante a infância que comecei a construir minha relação com os livros, a leitura e o conhecimento. Com o tempo, compreendi que o acesso à educação não deveria depender do CEP onde uma pessoa nasceu ou das oportunidades que sua família conseguiu oferecer.

Essa percepção me acompanhou durante toda a minha formação.

Participei do movimento estudantil, fui vice-presidente da União Brasileira dos Estudantes, formei-me em Geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, fiz pós-graduação em Administração Pública e me tornei mestre em Educação, Comunicação e Cultura em Periferias Urbanas, também pela UERJ. Ao longo da minha trajetória profissional, atuei em projetos sociais, na gestão pública e na construção de políticas ligadas à educação, à cultura e ao acesso à leitura.

Mas foi colocando livros nas ruas que muitas dessas ideias começaram a ganhar forma.

Quando os livros ganharam as ruas

Em 2009, comecei a deixar livros em ruas, praças, comunidades e espaços públicos do Rio de Janeiro.

A proposta era simples: alguém encontrava um livro, levava para casa, lia e depois o colocava novamente em circulação para que outra pessoa pudesse encontrá-lo.

Assim nasceu o Livro de Rua.

Mais do que distribuir exemplares, o projeto convidava as pessoas a participarem de uma rede. Cada livro podia passar por diferentes mãos, atravessar bairros e criar encontros entre pessoas que talvez nunca se conhecessem.

Ao longo dessa caminhada, mais de 150 mil livros foram distribuídos gratuitamente, levando leitura e cultura a milhares de pessoas.

Foi nas ruas que aprendi uma das lições mais importantes da minha trajetória: muitas vezes, o que falta não é interesse pela leitura. O que falta é acesso.

Quando o livro chega, a curiosidade aparece. A conversa começa. Uma nova possibilidade se abre.

A ideia ganhou rodas

No dia 20 de junho de 2017, o Livro de Rua ganhou rodas.

Nascia a BookTruck, uma biblioteca itinerante criada para percorrer diferentes regiões da cidade levando livros, histórias, atividades culturais e encontros para cada vez mais pessoas.

A kombi transformou-se em uma presença afetiva nas ruas. Onde ela chegava, os livros deixavam de ocupar apenas as estantes e passavam a fazer parte da paisagem da cidade.

Crianças se aproximavam. Famílias conversavam. Histórias eram contadas. Livros encontravam novos leitores.

A BookTruck mostrou que uma biblioteca não precisa permanecer parada. Ela pode se movimentar, ocupar praças, atravessar territórios e chegar até quem nem sempre consegue chegar aos equipamentos culturais da cidade.

Foi também nessa caminhada que uma ideia começou a ficar ainda mais clara para mim: oferecer um livro é importante, mas é possível fazer muito mais.

Quando uma biblioteca se transforma em cuidado

Em 2022, essa história ganhou uma casa.

Nasceu, em Anchieta, a Biblioteca Comunitária A Casa Amarela, idealizada por mim e construída coletivamente por voluntários, parceiros e moradores que acreditavam na importância de criar um espaço de leitura, convivência e aprendizado dentro do território.

A Casa Amarela nasceu da certeza de que um livro pode ser o começo de uma nova história.

Com o tempo, ela deixou de ser apenas uma biblioteca e passou a se reconhecer como uma biblioteca de cuidados.

Isso porque quem entrava em busca de um livro também trazia outras necessidades, sonhos e possibilidades. A leitura abriu portas para atividades culturais, esporte, inclusão, assistência social, alimentação, formação profissional e fortalecimento comunitário.

Entre 2024 e 2026, a iniciativa distribuiu mais de 340 mil refeições, garantindo alimentação diária para aproximadamente 600 pessoas, além de promover cursos profissionalizantes e diferentes ações voltadas à ampliação de oportunidades.

O projeto também cresceu e passou a alcançar diferentes pontos da cidade, mantendo suas raízes em Anchieta e chegando a novos territórios, incluindo uma unidade no MetrôRio Cinelândia.

Esse crescimento não representa apenas a abertura de novos espaços. Representa a ampliação de uma rede de acesso ao livro, à cultura e ao cuidado.

Um livro pode transformar uma comunidade inteira

A Casa Amarela me ensinou que um livro não muda apenas a vida de um leitor, um livro pode aproximar uma criança da escola. Pode ajudar um jovem a imaginar uma profissão. Pode criar um espaço de convivência para uma família e fortalecer a autoestima de uma comunidade. Pode fazer com que uma pessoa enxergue possibilidades que antes pareciam distantes.

Quando o acesso à leitura se encontra com educação, cultura, alimentação, formação e cuidado, o impacto deixa de ser apenas individual. Ele passa a alcançar o território.

Foi dessa experiência que nasceu o movimento +Livros – Violência.

Mais livros. Mais oportunidades. Menos violência.

Depois de tantos anos colocando livros para circular, criando espaços comunitários e convivendo diariamente com crianças, jovens e famílias, uma convicção se fortaleceu em mim:

Mais acesso ao conhecimento significa mais oportunidades.

Mais oportunidades fortalecem pessoas.

Pessoas fortalecidas ajudam a transformar suas comunidades.

E comunidades fortalecidas podem construir futuros diferentes.

O movimento +Livros – Violência não nasceu como uma campanha pontual. Ele nasceu da experiência de quem viu, na prática, que a educação, a cultura e o conhecimento são caminhos concretos para cuidar da cidade e transformar vidas.

Não se trata de acreditar que um livro resolverá sozinho todos os desafios de um território. Trata-se de compreender que cada livro pode ser uma porta de entrada.

Por essa porta podem chegar novas referências, conversas, relações, escolhas e perspectivas de futuro.

Como costumo dizer:

Livros não mudam o mundo. Livros mudam pessoas. E são as pessoas que mudam o mundo.

Uma trajetória que continua sendo escrita

Ao longo dessa caminhada, tive a oportunidade de atuar em projetos de educação e cultura, na formação de jovens e gestores públicos e na criação de iniciativas voltadas à democratização da leitura.

Também recebi reconhecimentos que guardo com gratidão, como a Medalha Tiradentes, o título de Carioca Nota Dez, concedido pela Veja Rio, e o Diploma Heloneida Studart de Cultura. Mais do que homenagens individuais, vejo cada reconhecimento como uma forma de dar visibilidade às causas, aos territórios e às pessoas que constroem essa história comigo.

Hoje, continuo acreditando na mesma ideia que me fez colocar os primeiros livros nas ruas:

quando uma oportunidade chega às mãos de uma pessoa, uma nova história pode começar.

Este blog nasce como mais um espaço dessa caminhada. Um lugar para falar sobre livros, educação, infância, cultura, territórios, políticas públicas, projetos sociais e os desafios de construir uma cidade com mais oportunidades para todos.

Se você chegou até aqui, já faz parte dessa história.

Seja muito bem-vindo. Vamos caminhar juntos.

 Pedro do Livro

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